1. O que é nicotinamida?
A nicotinamida é a forma amida da vitamina B3. Você também pode vê-la chamada de niacinamida. Ela é relacionada à niacina, mas se comporta de forma diferente no organismo. Uma diferença prática é que a nicotinamida não causa a sensação de calor e rubor comumente ligada ao ácido nicotínico, outra forma de niacina.
Nos cuidados com a pele, a niacinamida costuma ser encontrada em cremes e séruns. Na pesquisa em dermatologia, a nicotinamida também foi estudada como suplemento oral, muitas vezes em 500 mg duas vezes ao dia. Essa dose é muito maior do que a normalmente obtida pela alimentação, por isso faz mais sentido entendê-la como uma dose terapêutica do que como a quantidade típica de um multivitamínico.
Pesquisadores se interessam pela nicotinamida para a pele exposta ao sol por causa de sua ligação com o NAD+, uma molécula que as células usam para produzir e gerenciar energia. A radiação UV estressa as células da pele, danifica o DNA e pode enfraquecer a vigilância imune local. A nicotinamida parece ajudar a repor o estoque de NAD+, o que pode dar às células mais capacidade para realizar o trabalho de reparação após o estresse por UV.
2. Como ela pode agir na pele sob estresse da radiação UV
A nicotinamida não é um protetor solar. Ela não fica sobre a pele filtrando os raios UV. Estudos de laboratório e em pele humana sugerem outro papel: ajudar as células da pele a lidar com o estresse depois que a exposição à radiação UV já o desencadeou.
Em estudos mecanísticos, a nicotinamida ajudou a preservar a energia celular após a exposição UV e melhorou o reparo de alterações no DNA relacionadas à radiação UV, incluindo dímeros de pirimidina ciclobutano e marcadores de dano oxidativo ao DNA. Esses são tipos de lesão molecular que podem acontecer quando a pele é exposta à luz ultravioleta.
Ela também pode afetar a imunossupressão induzida por UV. Após a exposição UV, a pele pode ficar temporariamente menos eficaz em certas respostas imunes. Estudos humanos mais antigos constataram que a nicotinamida oral e tópica reduziu essa supressão relacionada à UV em modelos experimentais. Isso é relevante porque a vigilância imune é uma das formas pelas quais o corpo detecta células anormais.
Ainda assim, a maior parte dessas evidências vem de mecanismos e marcadores substitutos. Isso ajuda a explicar por que a nicotinamida pode ser útil, mas não prova que uma pessoa saudável possa tomá-la antes de umas férias ensolaradas e prevenir de forma relevante queimaduras solares, dano ao DNA, fotoenvelhecimento ou câncer.
3. O que as evidências mostram
O ensaio em humanos mais convincente é o estudo ONTRAC de 2015, publicado no New England Journal of Medicine. Ele incluiu 386 adultos imunocompetentes que tiveram pelo menos dois cânceres de pele não melanoma nos cinco anos anteriores. Os participantes tomaram nicotinamida 500 mg duas vezes ao dia ou placebo por 12 meses.
O resultado foi relevante: o grupo da nicotinamida teve 23% menos novos cânceres de pele não melanoma durante o período de tratamento. As queratoses actínicas, que são manchas ásperas de dano solar e às vezes podem evoluir para carcinoma espinocelular, também foram menores em vários momentos. O ponto importante é que o benefício não se manteve depois que as pessoas pararam de tomar nicotinamida.
Uma revisão sistemática e meta-análise posterior encontrou redução nos cânceres de pele em vários ensaios, mas os autores classificaram a recomendação como fraca. A base de evidências ainda é relativamente pequena, e grande parte dela envolve pessoas que já têm dano solar importante ou cânceres de pele prévios.
Adultos de alto risco: 500 mg duas vezes ao dia reduziu novos cânceres de pele não melanoma durante o tratamento.
Pele saudável: Os achados sobre proteção UV são inconsistentes e não se assemelham aos de um protetor solar.
Uso tópico: A niacinamida a 4% a 5% pode melhorar o fotoenvelhecimento visível em cerca de 12 semanas.
Uma grande coorte de veteranos publicada no JAMA Dermatology em 2024 acrescentou evidências do mundo real. O uso de nicotinamida em 500 mg duas vezes ao dia esteve associado a um risco modestamente menor de câncer de pele subsequente, sobretudo de carcinoma espinocelular cutâneo, com o maior benefício aparente quando iniciado após um primeiro câncer de pele. Mas era uma pesquisa observacional, não um estudo randomizado, e a coorte era composta principalmente por homens brancos mais velhos.
Os limites das evidências são tão importantes quanto os achados positivos. Em um ensaio de 2023 com receptores de transplante de órgãos sólidos, a nicotinamida não reduziu cânceres de queratinócitos nem queratoses actínicas. Isso sugere que o benefício observado em adultos imunocompetentes de alto risco não deve ser automaticamente estendido a pessoas com forte imunossupressão.
Para pessoas saudáveis que tentam se preparar para a exposição UV, os resultados são inconsistentes. Estudos mais antigos mostraram menos imunossupressão induzida por UV após nicotinamida oral ou tópica. Mas um estudo de 2025 com voluntários saudáveis, usando nicotinamida oral 2.000 mg por dia por 30 dias, não aumentou o limiar de queimadura solar por UVB e não reduziu de forma mensurável o dano ao DNA induzido por UVB. Um estudo de 2026 sobre UVA encontrou um aumento de 26% no limiar de vermelhidão por UVA, mas ainda assim não mostrou redução mensurável do dano ao DNA. Menos vermelhidão não é o mesmo que menos lesão molecular.
Para a niacinamida tópica, as evidências dizem mais respeito à aparência e à recuperação da pele. Ensaios com niacinamida a 5% encontraram melhorias em linhas finas, rugas, manchas hiperpigmentadas, vermelhidão irregular, amarelamento e textura da pele em cerca de 12 semanas. Isso combina bem com o uso para fotoenvelhecimento visível. Não prova prevenção de lesão UV mais profunda nem de câncer de pele.
4. Considerações práticas
Para pessoas com histórico de câncer de pele não melanoma ou dano actínico importante, vale a pena conversar com um dermatologista sobre a nicotinamida oral. A dose estudada costuma ser 500 mg duas vezes ao dia, e o benefício mais forte parece depender do uso contínuo. Ela deve ser usada junto com exames regulares da pele, protetor solar, roupas de proteção, sombra e avaliação rápida de lesões que estejam mudando.
Para a aparência geral da pele, a niacinamida tópica é a opção mais prática para o dia a dia. Produtos em torno de 4% a 5% são comumente usados em pesquisas e na prática cosmética. Em geral, ela pode ser aplicada uma ou duas vezes ao dia, dependendo do produto e de quão bem sua pele a tolera.
A nicotinamida não deve ser tratada como um protetor solar de uso interno. A Academia Americana de Dermatologia continua recomendando protetor solar de amplo espectro, resistente à água, com SPF 30 ou mais, além de sombra e roupas de proteção solar. Essas medidas básicas continuam sendo a base para reduzir queimaduras solares, fotoenvelhecimento e risco de câncer de pele.
5. Segurança
A nicotinamida é geralmente melhor tolerada do que o ácido nicotínico porque não provoca rubor. No ensaio ONTRAC, a nicotinamida oral 500 mg duas vezes ao dia não mostrou diferenças relevantes em eventos adversos em comparação com o placebo.
Mesmo assim, a dose e o contexto pessoal importam. O Escritório de Suplementos Alimentares do NIH lista, para adultos nos Estados Unidos, um limite superior de suplementação de 35 mg por dia para niacina, baseado no rubor, mas aplicado tanto ao ácido nicotínico quanto à nicotinamida. A EFSA lista um limite superior de 900 mg por dia para nicotinamida em suas tabelas-resumo. Isso significa que a dose comum nos ensaios de dermatologia, de 1.000 mg por dia, fica acima de um parâmetro regulatório e muito acima de outro.
Ingestões mais altas podem causar problemas. O NIH observa náusea, vômitos e sinais de toxicidade hepática em torno de 3.000 mg por dia, e estudos em diálise que usaram 500 a 1.500 mg por dia relataram diarreia e baixa contagem de plaquetas. Pessoas com doença hepática, doença renal, gravidez, amamentação, tratamento contra o câncer, imunossupressão ou esquemas medicamentosos complexos não devem usar nicotinamida em altas doses por conta própria sem orientação médica.